PARA HOJE / 17.OUT

Misericórdia é uma palavra muito bonita que aparece no Evangelho e que significa coração sensível. Não sensível no sentido de um sentimento piegas, mas "sensível à miséria" - miser-cordis, do latim: um coração atento à miséria, à necessidade, ao pobre. Traduz a palavra grega "eleison", Kyrie eleison, isto é "Senhor, misericórdia"! O termo eleison significa inclinar-se: Senhor, inclina-te para nós. Portanto, misericórdia, é o "estar inclinado para o outro". É viver inclinado, propenso, atento. É aquilo que hoje poderíamos chamar o "cuidado". A misericórdia tem ainda outra dimensão, que na Bíblia aparece junta com o "inclinar-se para..." e que é "ser fiel". Um coração inclinado e fiel.
Vasco P. Magalhães, sj
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PARA HOJE / 16.OUT

Eu só sou eu na medida em que cumpro a minha missão de transformar o mundo. Não há ninguém que não tenha um papel no mundo, que não tenha uma vocação. Todos temos uma missão, todos temos um papel transformador, que passa exactamente por estar atentos aos necessitados. E depois não ficar parado. Realizar essa missão dignifica-me, faz-me ser pessoa.
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PARA HOJE / 15.OUT

A caridade fraterna é o amor evangélico em acção que se distingue por duas características: é gratuita e é eficaz. No exercício de servir os outros e, em particular, os mais necessitados, sei que houve caridade quando se foi gratuito e eficaz. Deve ser gratuita... A caritas latina vem de carus, amigo de alto preço, apreciado. Como é que se pode ser interesseiro com um amigo que nos é caro? E deve ser eficaz, ou seja, ir além das boas palavras e dos bons sentimentos, traduzindo-se em acções concretas.
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PARA HOJE / 14.OUT

Santo Inácio de Loyola juntava sempre à palavra "caridade" a exigência de discernimento. Falava de "caridade discernida", o que é melhor para o outro naquele momento. Vai muito para além do impulso piedoso, obriga a pensar. Não é o "dou porque estou agora bem disposto", ou "não dou porque antipatizo com este desgraçado". Não, a caridade tem de fazer-se com discernimento: A quem? Onde? Como? O quê? Se a caridade não é discernida nem sequer é caridade.
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PARA HOJE / 13.OUT

A pobreza evangélica é um ideal muito profundo, que coincide, de alguma maneira, com a humildade. Muitas vezes isto não foi entendido. Uma humildade pedida pela caridade. Que fez Cristo? Aquilo que é próprio do divino. Nada mais divino do que sair de si (morrer) em prol do outro, do mais pobre e necessitado. Abaixou-se, pôs-se ao nosso nível, foi ainda mais abaixo! Abaixo de cada um de nós para nos levantar e elevar. Fez-se homem, fez-se servo, fez-se pão. Não há nada de mais sublime e elevado! Encontramos esse Deus olhando para baixo.
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PARA HOJE / 12.OUT

O pobre como ideal que aparece no Evangelho não é o pobre sociológico, o miserável. Contra essa pobreza é preciso combater. Aqui falamos daquele que é capaz de se despojar de tudo aquilo de que não precisa, do que vive a austeridade, o pobre é aquele que é capaz de partilhar, de estar aberto aos outros, o pobre é aquele que se compromete pelo mais justo. No sentido do Evangelho, os pobres e os humildes são os que vivem estas três dimensões, sem as quais não há pobreza. O Evangelho quer acabar com a miséria que é fruto da injustiça, quer lutar pela maior partilha, quer lutar pela justiça, quer lutar para que as pessoas saibam viver a felicidade do ser e não do ter. E isso os ricos não sabem fazer.
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PARA HOJE / 11.OUT

Bem-aventurados os pobres. Sim, mas não no sentido dos que não têm nada, embora o não ter possa ser caminho para o ser. Os pobres no sentido evangélico são os humildes, são aqueles que são verdadeiros, aqueles cujo apoio e cuja felicidade não está no que têm e possuem mas naquilo que são."Bem-aventurados os pobres" significa: felizes aqueles que sabem viver a austeridade, sabem viver a partilha, sabem viver a luta pela justiça. O seu espírito é livre, pobre, despojado.
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PARA HOJE / 10.OUT

O grande perigo, a grande tentação, é tornarmo-nos auto-suficientes, ricos de nós próprios, ricos de bens, de teres. O Evangelho não está contra ter, está contra o modo como se tem, contra aquele que põe a confiança nos seus bens e espera daí a felicidade. Isto é, fechar-se sobre si próprio. É uma atitude com muitas consequências práticas, a de pôr o seu deus nos bens. Em quem pões a tua segurança, em Deus ou nos bens materiais? E o que é que estás disposto a largar da mão, o que tens e és ou só aquilo que te sobra? A riqueza é vista como um grande vício, porque é fazer daquilo que se tem, dos bens materiais, o seu deus… e até mesmo os bens espirituais se podem tornar uma riqueza neste sentido se penso que me são devidos, se fazem o meu orgulho.
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PARA HOJE / 9.OUT

Vale a pena pagar a factura de ser cristão, factura sempre pesada em todas as épocas, em nome da verdade, em nome do amor. É a factura de Jesus Cristo. A verdade foi a grande virtude de Jesus. Não temos outro modelo! Claro que muita gente não quer a felicidade que Ele teve, porque é uma felicidade que não é satisfação nem prazer, é coerência de verdade consigo próprio, obediência a uma missão.
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PARA HOJE / 8.OUT

O terceiro grau de humildade é o da perfeição do amor. E santo Inácio de Loyola indica-o como uma graça especial que faz um salto na ordem e na sequência do "um, dois, três". É, por graça, uma mudança de nível, um salto mortal. É o ideal de se identificar com Cristo pobre e humilde, é uma realidade que só se compreende muito vivida. Os outros dois graus são próprios da natureza humana, podemos lá chegar com os nossos meios. Mas o terceiro, querer, como ideal, não ser mais do que aquilo que Cristo foi e passou, tomar como ideal Jesus Cristo humilhado, pobre, crucificado... é graça que podemos criar condições para receber. Devia ser o ideal do cristão. É um superlativo de humildade que eu posso descobrir na minha vocação cristã, que já não quero ser mais um eu, mas quero ir mais longe... e identificar-me com Cristo. E se Cristo se dispôs por amor a nós, pela nossa salvação, a passar por onde passou, também quero passar por onde Ele passou.
Vasco P. Magalhães, sj
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PARA HOJE / 7.OUT

O segundo grau de humildade é reconhecer-me e assumir-me como pecador, porque não sou apenas criatura, sou uma criatura pecadora, isto é, nem sequer me salvo sozinho, preciso de ser salvo. A consciência de que preciso de ser salvo é fundamental. E custa-nos muito aceitar que somos pecadores, não é que temos pecados (que até podem não ser muitos...), é que somos pecadores, isto é, somos estruturalmente carentes de amor e de graça.
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PARA HOJE / 6.OUT

Vale a pena reflectir nos três graus de humildade que santo Inácio de Loyola ensina. De referir que grau de humildade, grau de verdade e grau de amor são a mesma coisa! O primeiro grau de humildade é viver e reconhecer-me como criado, em processo, em crescimento, em nascimento, desde bebé até santo. Continuamente tudo o que eu tenho e sou é recebido, portanto não posso atribuir nada ao meu eu. Tudo é dom! Perceber que tudo é dom é um grande acto de fé e uma grande compreensão do amor de Deus. Há muitas pessoas que não têm esta compreensão e daí vem o primeiro pecado, querer ser como Deus, pensar-se (e agir) com auto-suficiência, a idolatria.
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PARA HOJE / 5.OUT

Cada um não é para si, cada um é para o outro, e ser totalmente para o outro, como se diz de Cristo, é esvaziar-se. Na medida em que eu me esvazio do meu egocentrismo e do super-ego, torno-me e encontro o meu eu (ego) mais profundo. Esta humildade, em vez de me despersonalizar faz-me encontrar quem sou, é vir ao meu eu mais profundo, deitando abaixo as imensas capas de aparências e de falsos egos que me dão seguranças exteriores. Então a humildade está no exercício de passar dos falsos eus ao verdadeiro Eu.
Vasco P. Magalhães, sj
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PARA HOJE / 4.OUT

Quem ama esvazia-se do seu ego para se sintonizar com o ego do outro. Isto é uma exigência do amor, do bem, e esta é que é a humilhação no sentido positivo, o esvaziar-me do meu eu para me pôr ao nível dos filhos e os compreender, para me pôr ao nível da pessoa amada e comunicar com ela.
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PARA HOJE / 3.OUT

A humildade é um acerto contínuo, porque posso estar a fazer-me de menos ou a fazer-me de mais. Temos de estar sempre a acertar, vou-me tornando humilde na medida em que acerto. E há pessoas que têm tendência a desviar para cima, para baixo, para o lado... Estar no palco. Humildade vem de húmus, terra fértil, que não é nada mas pode ser tudo. O tipo de fecundidade revela a humildade.
Vasco P. Magalhães, sj
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PARA HOJE / 2.OUT

A humildade mal entendida, como as falsas humildades ou as aparências de humildade, é mentira. "Faz-te muito pequenino", "coitadinho de mim, não valho nada", "não contem comigo, que eu não sou capaz", isto não é humildade, é fishing for compliments, à procura que os outros digam: "Não, tu até és bom!", ficando à espera de umas palmadas nas costas. É mentira! E a humildade é caminhar na verdade.
Vasco P. Magalhães, sj
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PARA HOJE / 1.OUT

A abnegação evangélica não é a destruição do eu, é aquilo que Jesus ensina, renega-te. E o abnegar-se, o ab negare, é negar-se à tendência auto-afirmativa orgulhosa que está latente em nós, que é a questão de fundo do pecado original. Existe na origem uma tendência de auto-afirmação que precisa de ser corrigida com verdade e com amor. Isso deixado a si próprio desumaniza, torna-nos egocêntricos, e portanto ab negare é negar o egocentrismo. Sublinhemos, não é negar o ego, é negar o egocentrismo.
Vasco P. Magalhães, sj
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